Ausländer

 

“Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.”

José Saramago

 

Ausländer, em alemão, quer dizer estrangeiro. Esse ensaio retrata o paradoxo dos sentimentos despertados durante a procura por uma identificação pessoal em uma terra desconhecida, distante e, ao mesmo tempo, impregnada de memórias e raízes. Uma história sobre busca, sobre um reencontro imaginário entre neta e avô.

 

Em 1935, tempos difíceis que antecediam a Segunda Guerra Mundial, meu avô materno, com 18 anos, deixava a Alemanha e chegava ao Brasil. Para trás, ficaram os pais, os amigos, os sonhos. Cresci ouvindo suas histórias e buscando referências daquele país que, de alguma forma, também sentia como meu.

 

O ensaio “Ausländer” começou a ser produzido em junho de 2011, durante uma viagem de 20 dias que fiz pela Alemanha, na tentativa de um encontro com todo o significado da palavra ascendência. O destino, o vilarejo de Nannhausen, terra do meu avô. Ruas vazias, apenas um silêncio quase absoluto, que me conduziu ao encontro da casa em que meu avô nascera. Um encontro de poucas palavras, de uma troca de olhares tímidos e um sentimento indescritível de se sentir no eixo, no princípio. Porém, como poderia fotografar algo que ali não existia mais? Onde estava a presença do meu avô, além de no meu imaginário? Ali não existiam as minhas memórias e sim, as dele. Coincidentemente ou não, perdi todas as fotografias do cartão de memória. E me vi vazia, mais uma vez. Permaneci assim, por alguns dias, tentando encontrar sentido pra tudo aquilo, o porquê de tantas perdas. Encontrei resposta em um trecho de As Cidades Invisíveis de Itálo Calvino:

 

- Você viaja para reviver seu passado?

era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte forma

- Você viaja para reencontrar seu futuro?
E a resposta de Marco:
- Os outros lugares são espelhos em negativo.

O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.

Então, a marcas e histórias da casa em Nannhausen, deixaram de ser os meus objetos de busca e parti para uma construção das minhas próprias memórias, memórias criadas sobre lembranças efêmeras de uma relação entre neta, avô, laços e ausências.

As fotografias surgiram a partir do processo de identificação com o desconhecido naquele país mas, mais do que isso, as imagens surgiam como se eu fotografasse, para mostrar para o meu avô, como eu via e sentia a sua terra. A inquietação da contradição, entre se sentir estrangeira e, ao mesmo tempo, fortemente ligada afetivamente a uma terra, guiou a construção do meu olhar, sobre as minhas relações com o espaço e com o vazio. São fotografias que revelam sentimentos muito fortes porém voláteis e frágeis de uma memória familiar fragmentada, quase inexistente. Memórias que me habitam e fazem-me sentir habitante de um lugar que não é o meu.

 

“Ausländer” é um ensaio sobre a construção dessas memórias e assim, precisei me reencontrar com outra casa. Um ano após a minha viagem para a Alemanha, voltei meu olhar para casa, em que meu avô viveu no Recife. Um lugar em que também vivi grande parte da minha infância, mas que me desperta a dúvida se as lembranças que tenho dos momentos que vivi ali são reais ou imaginárias. De alguma forma essa ausência me deu a possibilidade de me reencontrar com o meu avô e ainda que, no meu imaginário, pude lhe mostrar essas fotografias que criei sobre a sua ausência em mim.

*Ensaio vencedor da categoria Revelação do Prêmio Brasil de Fotografia 2013.

Ausländer_Pri Buhr_01
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Ausländer_Pri Buhr_02
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Ausländer_Pri Buhr_029
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