PRISCILLA
BUHR

Fotolivro Não Reagente
O fotolivro Não Reagente, da fotógrafa e artista visual Priscilla Buhr, foi lançado em março de 2025 com apoio do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura - Funcultura. Não Reagente, assim como a experiência da maternidade para as mulheres - tema e abismo sobre o qual Prisilla Buhr mira e se debruça para este projeto desde 2015 - é uma obra aberta e sempre inacabada. Não apenas pela complexidade de camadas que aborda numa poética crítica social sobre a compulsoriedade do nada natural estereótipo de instinto maternal mas também pela multiplicidade de maneiras que cada visita a este trabalho amplia nossa visão, na minúcia dos detalhes em cada imagem, sobre a sufocante e opressora vivência feminina de ter ou não ter filhos.
Em Não Reagente, Priscilla Buhr traça, com sensibilidade e precisão, um mapa emocional do não dito, das sensações inconscientes que reverberam nas pessoas que gestam e também nas que, à revelia da própria vontade, não geram seus descendentes. A partir de uma inquietação biopolítica sobre o desejo (ou a recusa) da maternidade, o trabalho dá nome ao sentimento de impotência vivido por tantas mulheres diante de um país historicamente machista, que lhes sequestra direitos, impõe sobrecargas e nega políticas públicas básicas desde a concepção. Mas, ao invés de recorrer ao imaginário do caos, da espontaneidade e da desordem frequentemente associados à maternidade, a artista tensiona o olhar com imagens limpas, meticulosamente planejadas, quase assépticas. Uma escolha estética que parece contrariar o tema, mas que, justamente por isso, fere com mais precisão. As composições contidas, os gestos suspensos, a ordem forçada nas cenas evocam o ideal de infância silenciosa, discreta, obediente, quase inanimada. Como se mães e filhos só fossem admitidos socialmente quando se comportam como se não estivessem ali. A crítica se insinua na forma: revela o paradoxo de uma sociedade que impõe a maternidade como destino, mas rejeita sua presença real. O que deveria ser acolhido é descartado. O que deveria ser celebrado, vira incômodo. É nesse atrito que o trabalho finca suas imagens como um sussurro limpo que grita.
Ao mesmo tempo que desvela a desromantização da maternidade Não Reagente é um manifesto pela “reação”, em que Priscila Buhr escancara, visceralmente, as entranhas da sua própria história para pulsar em todas nós a contravenção possível no ato de parir e dar vida aos sonhos, sejam eles filhos ou não. Mergulhar no próprio sangue, inescapável nas nossas “regras”, é um convite para transmutar e converter o maternar de IMPOSSIBILIDADE e restrição em um contraponto de FORÇA e liberdade para ser mulher nesse mundo APESAR DE.
Texto: Geisa Agrício
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